Noite de chuva


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Foi na última chuvarada do ano, e a noite era preta. O homem estava em casa; chegara tarde, exausto e molhado, depois de uma viagem de ônibus mortificante, e comera, sem prazer, uma comida fria.Vestiu o pijama e ligou o rádio, mas o rádio estava ruim, roncando e estalando.
“Há dois meses estou querendo mandar consertar este rádio”, pensou com tédio.
E pensou ainda que há muitos meses, há muitos anos, estava com muita coisa para consertar desde os dentes até a torneira da cozinha, desde seu horário no serviço até aquele caso sentimental em botafogo. E quando começou a dormir e ouvia que batiam na porta, acordou assustado achando que era o dentista, o homem do rádio, o caixa da firma o irmão de Honorina ou um vago fiscal geral dos problemas da vida que lhe vinha pedir contas.
A princípio não reconheceu a negra velha Joaquina Maria, miúda, molhada, os braços magros luzindo, a cara aflita. Ela dizia coisas que ele não entendia; mandou que entrasse. Há alguns meses a velha lavava-lhe a roupa, e tudo o que sabia a seu respeito é que morava em um barraco, num morro perto da lagoa, e era doente. Sua história foi saindo aos poucos. O temporal derrubara o barraco, e o netinho, de oito anos, estava sob os escombros. Precisava de ajuda imediata, se lembrara dele.
– O menino está… morto?
Ouviu a resposta afirmativa com um suspiro de alívio. O que ela queria é que ele telefonasse para a polícia, chamasse a ambulância ou rabecão, desse um jeito para o menino não passar a noite entre os escombros, na enxurrada; ou arranjasse um automóvel e alguém para retirar o corpinho. Quis telefonar, mas o telefone não dava sinal; enguiçara.
E quando meteu uma capa de gabardina e um chapéu e desceu a escada, viu que tudo enguiçara os bondes, os ônibus, a cidade, todo esse conjunto de ferro, asfalto, fios e pedras que faz uma cidade, tudo estava paralisado, como um grande monstro débil.
– E os pais dele?
A velha disse que a mãe estava trabalhando em Niterói.
– E o pai?
Na mesma hora sentiu que fizera uma pergunta ociosa; deve ser um personagem vago e impreciso, negro e perdido na noite e no tempo, o pai daquele pretinho morto. Lá atravessando a rua com a velha; subitamente, como a chuva estivesse forte, e ela tossisse, mandou que voltasse e esperasse na estrada da casa. Tentou fazer parar quatro ou cinco automóveis; apenas conseguiu receber nas pernas jato de lama. Entrou, curvando se, em um botequim sórdido que era o único lugar aberto em toda a rua, mas já estava com porta de ferro a meia altura. Não tinha telefone. Contou a história ao português do balcão, deu explicações ao garçom e a um freguês mulato que queria saber qual era o nome do morro – e sentiu que estava fazendo uma coisa inútil e ridícula, contar aquela história sem nenhum objetivo. Bebeu uma bagaceira, saiu para a rua, sob a chuva intensa, andou até a segunda esquina, atravessou a avenida, voltou, olhando vagamente dois bondes paralisados, um ônibus quebrando, os raros carros que passavam luzidios na noite negra. Sentiu uma alegria vingativa pensando que mais adiante, como certamente já acontecera antes, eles ficariam paralisados, o engarrafamento enervante do trânsito. Uma ruazinha que descia à esquerda era uma torrente de água enlameada. Mesmo que encontrasse algum telefone funcionando, sabia que não conseguiria àquela hora qualquer ajuda da policia, nem da assistência, nem dos bombeiros; havia desgraças em toda cidade, bairros inteiros sem comunicação, perdidos debaixo da chuva. Meteu os pés até os tornozelos numa poça d’água. Encontrou a velha chorando baixinho.
– Dona…
Ela ergueu os olhos para ele, fixou-o numa pergunta aflitiva, como se fosse ele o responsável pela cidade, pelo mundo, pela organização inteira do mundo dos brancos. Disse à velha, secamente, que tinha arrumado tudo para “amanhã de manhã”. Ela ainda o olhou com um olhar desamparado – mas logo partiu na noite escura, sob a chuva.
Rubem Braga
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