Lua adversa


moon

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meirelles

O navio das sombras


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É noite escura e o cais está deserto. Ivo ergue a gola do sobretudo. Sente muito frio, e o silêncio enorme e hostil enche-o de um vago medo. Vai viajar. Mas é estranho… Tudo parece diferente do que ele sempre imaginara. O grande transatlântico se desenha sem contornos certos contra o céu de fuligem. Não se vê um só vulto humano no cais. Adivinha-se, entretanto, na treva, a presença rígida e gelada dos guindastes.

Os minutos passam. Ivo olha. Sim, agora vê com mais clareza a silhueta do grande barco. A grande Viagem! O seu sonho vai se realizar. Ficarão para trás todas as suas angústias. É uma libertação. Devia estar alegre, sacudir os braços, correr, gritar. Mas uma opressão estranha o paralisa. Que é isto? Onde estão os outros passageiros? Onde se meteu a tripulação? É inquietante este silêncio noturno. E pavorosa esta sombra glacial que envolve tudo. Ivo quer lançar ao ar uma palavra. Pronuncia bem alto seu próprio nome. O som morre sem eco. O silêncio persiste. Então ele começa a sentir um mal-estar que nem a si mesmo consegue explicar.

Divisa aos poucos, vultos imóveis na amurada do paquete. Parecem guardas petrificados dum barco fantasma. Por que não se movem? Por que não falam? A esta hora a orquestra de bordo devia estar tocando uma marcha festiva. Carregadores gritando. Passageiros, empregados de hotel, agentes da companhia de navegação, guardas — muita gente devia andar pelo cais num formigamento sonoro. No entanto reina o mais espesso silêncio… Ivo dá dois passos e é tomado duma esquisita sensação de leveza. Caminha sem o menor esforço. E como se não encontrasse nenhuma resistência no ar, como se suas pernas fossem de algodão.

Mete a mão no bolso. Sim, ali está a sua passagem. Fica mais tranqüilo e encorajado. Pode embarcar. Deve embarcar… Seria decepcionante perder o navio…

Dirige-se para a prancha. Hesita um instante antes de partir, porque a seus ouvidos soa, muito fraca, muito abafada, uma voz amiga.

— Ivo, Ivo querido, não me abandones! Inexplicável. De onde veio a voz? Volta a cabeça para os lados, procurando. Só encontra a escuridão fria e inimiga, O navio apita. Um som soturno, grave e prolongado, enche a grande noite. E uma queixa, quase um choro e, apesar disso, tem um certo tom de ameaça. Nesse apito rouco Ivo sente o pavor do oceano desconhecido na noite negra, a angústia dos navios perdidos a pedirem socorro, a aflição dos náufragos, o horror das profundezas do mar. O apito uivante e áspero parece feito dos gritos de todos os afogados, de todos os mares.

Ivo sente-se desfalecer de medo.

— Meu Ivo, por que foi? Por que foi?

Outra vez a voz. Ivo estremece. De onde vem aquela voz? Na amurada, os vultos continuam imóveis. Nenhum deles podia ter falado assim com aquela ternura longínqua. Porque eles devem ter uma voz cavernosa de pedra.

Parado ao pé da prancha, Ivo olha para o alto. Vê um homem na extremidade superior da escada. Está de pernas abertas, braços cruzados, olhando para baixo. Ivo não lhe pode distinguir £s feições. Mas é curioso, ele sente a força de dois olhos magnéticos que o fitam. E aquele olhar é um chamado, uma ordem.

Começa a subir. Lembra-se de um trecho de antologia da sua infância. André Chenier subindo as escadas do cadafalso. Sim, ele sente que vai ser guilhotinado. Lá em cima está o carrasco. Ou será apenas o capitão? Ivo sobe. Um, dois, três, quatro degraus … O frio aumenta, Ivo começa a tiritar. Cinco, seis, sete. Sente uma fraqueza, uma tontura. Subiu apenas sete degraus, mas agora o cais está tão longe de seus pés, que ele tem a sensação de se encontrar no alto duma torre altíssima. O vento sopra gelado como a face dum morto. Mas por que lhe vêm com tanta insistência esses pensamentos macabros? Esta não é então a Viagem, a sua desejada aventura transoceânica? Deve então alegrar-se, cantar . . . Procura assobiar uma ária alegre. Mas o vento lhe impõe silêncio. Ivo sobe sempre . . . Quando senta o pé no navio, não vê mais o capitão. Volta os olhos e só enxerga a noite, a grande noite, a densa noite.

Por que não acendem as luzes deste navio? Senhores, as luzes! Outros vultos passam. Mulheres, homens, crianças. É aflitivo. Ivo não lhes pode ver os rostos. E o silêncio apavorante!…

Ivo se aproxima dum homem que se acha encostado à amurada.

— Por favor, meu amigo, pode me dizer se este vapor é o…

Cala-se. É assustador. Ele não sabe o nome do barco em que entrou. Como foi isso? Não se trata então duma viagem, da “sua” desejada viagem, por tanto tempo planejada e acariciada? Por que tudo agora está tão esfumado e confuso, como se sobre sua memória tivesse caído um véu? Ivo começa a suar. O suor lhe escorre pelo rosto em bagas frias.

– Pode me dizer onde fica o bar?

Sim, precisa tomar uma bebida qualquer. Deve ser o frio que o deixa assim tão sem memória, tão fraco e trêmulo.

— Cavalheiro, pode me dizer onde fica o sol?

O sol? Mas ele não queria perguntar onde ficava o sol. Jurava que ia
perguntar onde ficava o bar.

— Por favor, cavalheiro…

O vulto se move sem o menor ruído e some-se na sombra.

Ivo treme dos pés à cabeça. “Preciso encontrar o meu camarote” diz para si mesmo — “preciso descobrir a minha bagagem” — pensa, numa crescente aflição. — “Deve existir alguém a bordo que possa me explicar. Talvez um doutor… Sim. Estou doente…”

E agora ele tem consciência duma dor, não aguda mas continuada e martelante, bem no lado esquerdo do peito. Leva a mão ao coração. Retira-a úmida. Será sangue ? Sim, deve ser…

Sai a correr apavorado. Um médico! Um médico! Estou ferido, vou morrer,
socorro! Mas suas pernas, de tão leves, agora se vergam. Ivo pára. Ajoelha-se e grita ainda: Um médico! Mas não consegue ouvir a própria voz. Ergue-se, agoniado. Homens, mulheres e poucas crianças continuam a passar. São ainda sombras sem vozes nem gestos.

Ivo procura orientar-se na escuridão. Parece-lhe agora enxergar contornos mais nítidos. Sim. Ali está uma porta. Um corredor. Se ele entrar no corredor talvez ache o seu camarote. Tem agora vagamente a lembrança dum número. 27… 27… Recorda-se de tê-lo visto impresso em algarismos negros sobre um quadro branco. 27… Onde?

De repente tem a impressão de que na memória se lhe abre uma clareira por onde ele enxerga o passado. Mas é apenas um relâmpago. De novo cai a névoa. Já não lhe dói mais o peito. Tudo deve ter sido ilusão … ele não está ferido. As sombras passam. A bruma que vem do mar invade o navio. Onde estará o capitão? O frio e o silêncio persistem. O barco misterioso torna a soltar um gemido rouco e prolongado. Mas – é incrível, incompreensível, endoidecedor — nem o apito consegue quebrar o silêncio.

Ivo caminha sem destino. Não ouve o ruído dos próprios passos. Não tropeça em nada. Aproxima-se da amurada e olha o mar. Só vê a escuridão velada duma bruma de cor doentia.

Um homem se aproxima dele. Ivo olha-lhe o rosto.. Já se lhe distinguem alguns traços. Decerto o hábito da escuridão. Céus, mas que rosto pálido! Parece a cara dum cadáver. A pele está ressequida e tem um tom esverdeado. Os olhos, parados e sem brilho. Os dentes arreganhados…

Agora aparecem outras faces. Uma criança sorrindo um sorriso horrendo. Uma mulher com os olhos furados escorrendo sangue. Um velho com a boca queimada de ácido. Ivo solta um grito… Mas o silêncio continua. Onde estarei? — pensa ele. — Onde estarei? Faz um esforço dolorido para se lembrar.

Quem sou eu? Como foi que vim parar aqui? Onde estão os meus amigos, as pessoas que eu via todos os dias?

O frio aumenta. Ivo sente-se desfalecer. Tem a impressão de estar boiando
nas ondas dum mar gelado, como um náufrago; como um iceberg…

Camarote 27! — diz Ivo, – 27… 27… — Seus lábios se movem, mas nenhum som perturba o silêncio do grande barco e da enorme noite.

De repente uma onda morna lhe invade o corpo. Pela proa do navio começa a nascer uma luz, pálida a princípio, mas a pouco e pouco se fazendo mais viva e dourada. Os olhos de Ivo se agrandam. Aquela luminosidade vai ser a explicação de tudo, a volta da memória… Sim, ele vai descer pela prancha e ganhar o cais. O cais também é negro e silencioso. Mas não há nada como a terra firme. Ele não quer viajar neste vapor tenebroso cujos passageiros são fantasmas. O mar desconhecido é um pavor na noite. Oh Deus! – pensa Ivo – como foi que eu cheguei a desejar esta viagem!? Que louco! Que louco! A luz cresce. O calor aumenta. A voz amiga se ouve mais forte: “Ivo, meu querido, fica comigo!” Sim, ele quer ficar. E preciso fugir do capitão do barco noturno. Ivo dá dois passos para a luz.

Ajoelhada ao pé da cama a moça aperta e beija a mão pálida do rapaz.

— Ivo, não quero que morras, não quero. Por que foi que fizeste isso? Por que foi?

Com a seringa de injeção numa das mãos, o médico contempla o rosto pálido do suicida. Pobre diabo! Perdeu tanto sangue… O corpo está quase frio.

A um canto do quarto, a dona da casa, torcendo o avental, olha muito assustada para a cama. “Por causa do que me devia, ele não precisava fazer isso. Eu podia espe­rar. Não tinha importância. Deus me perdoe. Se eu soubes­se, não tinha vindo hoje trazer a conta. Logo hoje, Nos­sa Senhora!”

Ao pé da janela, o porteiro da casa conversa com um agente de polícia.

— De onde era ele?

— Do interior.

— Tinha família?

O porteiro encolhe os ombros.

— Era um moço muito calmo, muito delicado. An­dava sem emprego. Eu dizia para ele que tivesse paciência. Mas qual! Não aguentou… Há gente nervosa.

Falam já de Ivo como quem fala dum morto. O médico aproxima-se do grupo.

— Fiz uma tentativa desesperada. Injetei-lhe adrena­lina no coração. — Sacode a cabeça. — Não tenho muita esperança. Enfim… acontecem milagres…

Ao ouvir a palavra milagre a velha começa a rezar.

De repente a moça se ergue, como que impelida por uma mola.

— Doutor! Ele está se mexendo… venha! Venha! Os três homens se aproximam da cama. O rosto de Ivo se move, seus olhos se entreabrem. Há um breve instante de aflitiva esperança. Ivo como que se baloiça, indeciso, por sobre as tênues fronteiras que separam a vida da morte.Mas parece haver do outro lado um chamado mais forte. O corpo se imobiliza.

O doutor inclina-se e ausculta-lhe o coração. Olha para a moça e diz, baixinho:

— Sinto muito. Mas não há mais nada a fazer. A dona da casa desata a chorar. Com o rosto contraído numa expressão mais de estupefação que de dor, a rapariga olha do médico para o morto, do morto para a folhinha da parede, onde o número 27 em letras negras se destaca sobre o quadrado branco. Iam contratar casamento, hoje, hoje…

O transatlântico vai partir. O transatlântico apita. É um gemido rouco, longo, doloroso, desesperado, irremediável. Debruçado à amurada, Ivo olha o vácuo. Agora é uma sombra resignada entre as outras sombras. O vento do grande mar desconhecido varre o barco dos suicidas. E todos eles ali vão em silêncio, enquanto na ponte o fantástico Capitão olha com seus olhos vazios a noite insondável.

                                      Érico Veríssimo

Amor, corte e costura


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Para Solange Basso de Mattos


Por acaso, só por acaso, Helena tinha esquecido que havia mais coisas no mundo. Os alfinetes e agulhas postos na almofadinha de veludo bordô, linhas em finas garatujas de cores, a fita métrica enrolada sobre si mesma num canto da mesa, o dedal de borco, tudo em ordem, bastando-se na suficiência do mundo que se organizou. A tesoura em estalidos no pano de florezinhas miúdas, isso a única coisa que se mexia. A tesoura e a mão que a empunhava, mão segura e forte, de veias salientes e de juntas grossas. Percebeu-se por primeira vez, naquela tarde, olhando o movimento das lâminas e dos dedos que as guiavam. A estampa mimosa tremia timidamente aos claques da tesoura; como tremia, constatou, não sem certa surpresa e um pouco de desconcerto. No auge da consciência, a campainha tocou, e era como se a arrancassem daquele lugar de ordenação própria e boa. Havia mais coisas no mundo, portanto, o acaso fora desfeito e tinha de atender ao chamado. A tesoura, largou-a sobre o tecido, as hastes abertas, o brilho do metal em contraste com o florejado de muitas cores sobre o fundo escuro, quase negro. Caminhou sem pressa, arrastando as pantufas de lã, dando-se conta de que as coisas se podiam desorganizar de hora a outra, o perigo que vem desses equilíbrios delicados e eventuais. Abriu a porta. A menina teria seis, sete anos, não mais do que isso. Parada, verdadeiramente parada, os pés nuns sapatinhos de fivela, carpins brancos e vestido com peitilho de renda barata. Vinha pela mão de uma senhora de cabelos fantasticamente louros e de boca vermelha, muito vermelha, como uma boneca a que se exageram as feições. Das duas – da mulher, deu-se conta – manava um perfume doce, quase asqueroso. A menina fitava a dona da casa com olhos vivazes e ágeis; tinha um meio sorriso na boca pequena. Helena sentiu uma breve zonzeira, muito breve, como uma ânsia que apenas se insinua. Foi a mulher de pintura escandalosa quem primeiro falou: viera por recomendação de uma amiga, queria fazer uma roupa para a enteada. A menina baixou o olhar, numa timidez repentina. Helena tentou dizer alguma coisa, não costurava para crianças, não mais, mas a voz se trancara, e logo o estrago já estava feito, mais um. Limitou-se, assim, a pedir que entrassem, cedendo passo com o corpo num movimento lerdo e contrafeito. Estiveram olhando figurinos – L’enfant chic, exemplar usadíssimo, em primeiro lugar – por um bom quarto de hora, o cheiro doce e ofensivo do perfume alcançando até o mais remoto canto da casa. A mulher folheava as revistas com os dedos de unhas vermelhas como a boca, buscando algum modelo, não sabia bem como, não sabia bem que cor, primeira comunhão da sobrinha, por que era tão difícil encontrar algo que servisse a uma criança? A menina sentada no sofá, ao lado da mulher, sem o mínimo interesse pela função, olhava ao redor, os pés pequeninos parados no ar. Helena, sentindo uma angústia antiga, teve vontade de sair dali, vontade que se tornou definitiva. Pediu licença, já voltava, gostariam de tomar alguma coisa? A mulher agradeceu, não, não queria; a menina não respondeu nada, limitando-se a amarfanhar entre os dedos a barra do vestido, puxando-a até a altura dos joelhos. Helena foi até a cozinha e trouxe dois copos de suco, sem saber direito para quem se destinava a cortesia. A mulher, entretida com a escolha e em achar tudo muito desgracioso, declinou novamente do oferecimento. A menina pegou o copo com ambas as mãos, numa cautela treinada. Tomou o suco aos goles curtos, tudo, tudinho, e devolveu-o à bandeja, depondo-o sobre o guardanapo de crochê. Levantou-se, assim de inopino, tomando impulso no encosto do sofá. Deu uns dois passos e ficou ali, ao lado da madrasta, parada, verdadeiramente parada, os braços para trás do corpo, as mãos às costas. Helena colocou-se em alerta, um estado de atenção extraordinária, uma vertigem que lhe vinha da nuca ou das costas, não sabia precisar. A menina ali, acintosamente parada em sua beleza de infância, radiante, plena, completa, a louça da pele e os brilhantes dos olhos. A mulher não prestou maior atenção ao fato. Mais um quarto de hora, e já uma aragem de fim de tarde bulia as cortinas, fazendo esvoaçar o voal branco. A menina, a essa altura, caminhava pela sala, mexericando nos bibelôs sobre as estantes. Helena não tinha mais interesse na mulher, concentrado-se, tensa e irrequieta, nos movimentos da pequena que, agora, ponta dos pés, tentava alcançar uma boneca de pano no alto de uma prateleira. Antevendo a tragédia, adiantou-se e, numa agilidade que não era sua fazia anos, buscou o brinquedo, esticando-se toda e entregando-o à interessada, maternal e cuidadosamente. A pequena agradeceu e sentou-se no sofá, a boneca sobre suas pernas. Helena aquietou-se na poltrona, porque algum equilíbrio se havia recomposto. Finalmente a senhora fechou a Burda com um gesto decidido, suspirou dentro de alguma ideia silenciosa e, sem olhar outra coisa que não um vago ponto na parede, disse vem cá para a menina. Obedecendo a ordem, largou a boneca com displicência, abandonando-a sobre o assento, postando-se em frente à madrasta. A mulher espetou o dedo no ar, o carmesim em voluteios, quero assim, dizia, desenhando o decote no peito de renda, redondo, a senhora entende? Helena concordou com a cabeça. A outra seguia na demonstração, a criança com os braços abertos ao lado do corpo, as mãos pendendo frouxas, deixava-se servir de manequim, dando uma lenta volta em torno de si mesma, permitindo que ali se desenhasse o vestido de mentirinha, o esmalte vermelho pulsando na vista cansada de Helena, mangas fofas, com um corte a cingir-lhe a cintura, arrematado por um tope atrás, apertava-lhe à altura dos rins, sacudia a criança, assim, bem aqui, assim, a senhora entende? Entendia, entendia, já fizera muitos naquele feitio, e tratou de recomendar um tafetá, não muito encorpado, nas Casas Safira deveria haver dos bons, as mangas de organdi e a fita da cintura em cetim, estava bem? Agora, a concórdia; o tecido seria trazido no dia seguinte, combinaram. Antes, porém, tinha de tirar as medidas, esperassem um pouco. Helena apanhou a fita sobre a mesa depois de levantar-se com dificuldade. Colocou os óculos; de pé, em frente à cliente, depôs-lhe as duas mãos sobre seus ombros, aproximando-a para si. Com sabedoria e com uma espécie de ressentimento, começou a medi-la: enlaçou a menina nos pontos em que devia enlaçar, os gestos um tanto bruscos, a menina girando, obediente, sobre o eixo do próprio corpo, uma boneca de movimentos gentis, graciosa, sempre graciosa. As medidas, anotou-as a lápis numa caderneta de folhas pardacentas. Ao final, acompanhou-as até a porta, disse-lhes um breve até logo e voltou à mesa de trabalho. Quis continuar do ponto onde parara, mas sentia frio e as mãos se ressentiam. Dobrou a fazenda, guardou a tesoura, organizou retroses, dedal, agulhas e alfinetes e foi preparar a janta. O perfume da mulher, como uma ofensa, ainda pairava doce e enjoado na sala. A boneca de pano ficou, molenga e sem jeito, sentada no sofá. No dia seguinte, logo cedo, lá vinha o tafetá em cor clara, celeste, e os atavios condizentes. A mulher tinha pressa, ficou parada no umbral, o perfume doce; limitou-se a perguntar quando seria a primeira prova. Helena respondeu que passado o dia seguinte, depois de amanhã, quinta, à primeira hora da tarde. Deu duas voltas na chave, escorou-se contra a porta e trouxe de encosto ao peito o pacote. Ficou ali por algum tempo, como quem espera que algo aconteça, algo que nunca chega a acontecer.
Aboletou-se à mesa e desenhou o molde num papel pardo, recortando-o logo a seguir. Abriu o tecido sobre a superfície de madeira e começou o claque-claque da tesoura, a fita métrica pendurada no pescoço, agulhas e alfinetes na almofadinha de veludo bordô, linhas em finas garatujas de cores, o dedal de borco, os apetrechos dispostos ao alcance da mão. Por acaso, o mundo se reordenava, ainda que periclitantemente, as lâminas vencendo em golpes certeiros o rebrilho da fazenda. A boneca de pano, desconhecendo o instante de frágil harmonia, continuava sentada no sofá. Na quinta, às duas da tarde, ou por volta disso, a campainha deu sinal. A agulha voltou à almofadinha de veludo bordô, e, abandonando o dedal sobre a mesa, caminhou sem pressa, arrastando as pantufas de lã. A mulher. A criança. O perfume adocicado, que agora Helena percebia com mais asco. Fez com que entrassem, cedendo passo com o corpo num movimento lerdo e contrafeito. A menina, sob as ordens da madrasta, desvestiu os sapatos e tirou o vestido. Helena percebeu-a em sua nudez cândida e acintosa, a barriga algo saliente, as pernas roliças, o torso de pele suave, os mamilos apenas manchas róseas no peito. Não quis pensar, nem era hora, mas novamente o mundo se desordenava, o equilíbrio das coisas apenas uma breve experiência já pretérita. Com vagar – com amor – ajudou a menina a vestir a fazenda cortada, prendendo-a com alfinetes às costas. Fita métrica ao pescoço, era hora de ajustar o que tinha de ser ajustado. Ajoelhou-se em frente à cliente, ficavam assim da mesma altura, começaria pelo decote, melhor cortar no corpo, a tesoura desenhando a cava, claques escrupulosos rentes à pele muito branca e muito tenra, o tecido cedendo, partido em suas nuanças brilhosas, a carne surgindo, revelando-se lisa e sem ofensa. A menina mexia-se inquieta sem ouvir as reprimendas da madrasta; a costureira não dizia nada porque tinha ciência que não havia volta atrás, por milímetros tudo estaria perdido, as perdas sempre desdobramentos sutis do reles e do minúsculo. Apenas os olhos da menina, fixos, pareciam feitos de alguma matéria maleável, neles toda a substância do que se podia recompor. Sentia a respiração morna da criança, uma intimidade reforçada pelos dois rostos que se haviam posto muito próximos um do outro, inadvertidamente próximos, o estranho avizinhar-se de dois seres. Um mal-estar se impunha, devagar, mas abençoado. Foi quando pareceu ouvir algo rompendo o instante mágico, o encanto se quebrando como um vidro que se estilhaça. Alçou a vista por cima dos ombros da pequena e foi encontrar o rosto de feições marcadas da mulher: está muito comprido, repetiu ela, articulando, com despudor, a boca rubra. Muito comprido, Helena concordou e, espichando um pouco o braço, deu de mão na almofadinha de veludo bordô. Pensou que a barra lhe sairia torta e, erguendo-se a duras penas, pegou a régua de madeira de dentro de uma gaveta. Colocou-se de novo de joelhos e, com a ajuda daquele prumo, ia marcando a barra, a menina girando sobre si mesma, lenta, cheia de poses, trocando o pé de apoio, uma bailarina em cima de uma caixinha de música, lenta, sempre lenta. Até que aconteceu: um dos alfinetes rascou a pele suave, abrindo uma trilha de vermelho tinto de mácula. A pequena gritou, afastou-se dentro do instinto, a mulher enervou-se, puxando para si a enteada, assentando-a no regaço, pobrezinha, pobrezinha, como isso foi acontecer?Helena sentia a sala triturada pelas exclamações, as vozes perturbavam-lhe os sentidos, parecia ter caído numa armadilha. Não sabia o que se passava, somente guardara na retina a trilha de fino sangue tinto de mácula, tão fino e tão tinto que seus ouvidos retiniam. Não havia piedade, nem era caso de haver, se houvesse seria só por acaso. O mundo não mais se bastava, a ordem se havia rompido. Percebia-se como se fosse por primeira vez, a cena do passado se recompondo, o barulho dos ferros em atrito, o griteiro e o bolo de gente que vinha sabia-se lá de onde: a menina que tinha junto a si era um ser de pernas compridas e de rosto igual ao seu, apenas isso. Apertou-a com força, com o espanto do auge da consciência; as costelas delicadas da criança entre os braços, o choro de susto apagando-se, entre os dedos uma calidez úmida, viva e aterradora, as costelas cedendo, o tronco cedendo, o mundo cedendo, tudo esboroando-se num conjunto desbeiçado e frouxo, os braços frouxos, as mãos frouxas, a pele de louça em mácula, as pedras dos olhos ocultas pelas pálpebras transparentes de tão brancas, o corpo molenga e sem jeito. Depois, o vácuo. Era como se nada mais houvesse, e nada mais havia de qualquer forma.Assim, atravessando o amor e seu inferno, apagando-se a última flama, Helena levantou-se com tranqüilidade. Pegou a boneca de pano que ainda estava sentada sobre o sofá. Deu-a à menina, que, em meio a muxoxos ressentidos, fungando sempre, acomodou o brinquedo sobre as pernas, tentando ajeitar o tronco lasso e frouxo; alisava, como numa espécie de carinho doloroso, as tranças de lã presas por duas fitas muito gastas. O sentimento que teve Helena era quase doce, quase bom, mas muito triste; disse, sem nem ao menos se escutar, que voltassem no dia seguinte, o vestido estaria pronto. Tampouco se apercebeu de si quando falou que a menina podia levar a boneca, era um presente que lhe fazia.Depois de despachá-las, sentou-se à mesa: os alfinetes e agulhas postos na almofadinha de veludo bordô, linhas em finas garatujas de cores, a fita métrica enrolada sobre si mesma num canto da mesa, o dedal de borco, tudo em ordem, bastando-se na suficiência do mundo que se organizou, embora, e agora ela nunca mais esqueceria, houvesse mais coisas, aquelas que moravam no perigo desses equilíbrios delicados e eventuais.

                                                                                                                                        Cínthia Moscovich

Saudades


saudades

Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser…

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro…

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências…

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
não sei onde…
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês…
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados…
para contar dinheiro… fazer amor…
declarar sentimentos fortes…
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
“I miss you”
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência…

 

Clarice Lispector

Das vantagens de ser bobo


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O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

                                                                    Clarice Lispector

A bailarina


carlos

A profissão de bufarinheiro está regulamentada; contudo, ninguém mais a exerce, por falta de bufarinhas. Passaram a vender sorvetes e sucos de fruta, e são conhecidos como ambulantes. Conheci o último bufarinheiro de verdade, e comprei dele um espelhinho que tinha no lado oposto uma bailarina nua. Que mulher! Sorria para mim como prometendo coisas, mas eu era pequeno, e não sabia que coisas fossem. Perturbava-me. Um dia quebrei o espelho, mas a bailarina ficou intacta. Só que não sorria mais para mim. Era um cromo como outro qualquer. Procurei o bufarinheiro, que não estava mais na cidade, e provavelmente teria mudado de profissão. Até hoje não sei qual era o mágico: se o bufarinheiro, se o espelho.

Carlos Drummond de Andrade

Doze conselhos bíblicos


jovem-biblia

1) Não prometa o que não vai cumprir. Mateus 5:37.

2) Organize o seu tempo. Eclesiastes 3:1.

3) Seja gentil e pratique a cortesia.( Com licença, por favor, obrigado, desculpe). Romanos 12:20 e 21.

4) Seja ético. Respeite os limites dos outros. Atos 15: 7 ao 10.

5) Controle as suas palavras. Efésios 4:29.

6) Seja equilibrado com as suas finanças, não gaste mais do que ganha, não desperdice. Gênesis 41: 47 ao 49, 53 ao 57.

7) Encontre alguém para ajudar. Há pessoas que vivem para serem ajudados e nunca ajudam ninguém. Eclesiastes 11: 1 e 2.

8) Honre e respeite a sua família. Gênesis 47:11 e 12. I Tim. 5:8.

9) Não perca tempo com a inveja. Provérbios 14:30.

10) Seja perseverante. Pare de abandonar os projetos pela metade. Daniel 12:13.

11) Seja otimista com o seu dia e a sua vida. I Reis 4:26

12) Assuma um real compromisso com Deus. Mateus 6:33. Mas, buscai primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça, e as demais coisas vos serão acrescentadas.

Recebido no grupo de whatsApp Argilas da Drica 2 por Zilpa Belo.