Tu e Eu


Resultado de imagem para como tu tu e eu Fernando Verissimo

Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
En não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
– que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.

Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobão
eu sou mais albônico.
Tu,fão.
Eu,fônico.

És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu,piniquim.
Eu,ropeu.

Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu,multo.
Eu,carístico.

És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu,cano.
Eu,clidiano.

Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu,tano.
Eu,femismo.

Luis Fernando Veríssimo

A Origem das Revespécies


227-eraumavez

Você já deve ter quebrado muito a cabeça pra responder aquela velha pergunta sobre o ovo e a galinha… Ora, convenhamos, desde que os cientistas anunciaram o parentesco entre a dita cuja e os dinossauros, não é preciso ser nenhum Charles Darwin pra matar essa charada…

Por um capricho da natureza, ficou decidido que os dinossauros pulariam de grandalhões para a categoria peso-pena, passariam a acordar com as galinhas e seriam bichos muito bons de bico. Daí, foi só uma tiranossauro botar um ovo com um pintinho dentro, para dar início à era das galináceas no planeta. Pronto, o ovo veio primeiro!

E já que estamos falando sobre as transformações no reino animal, é bom lembrar que a evolução não é privilégio apenas das cocoriquentas. Tempos depois de um cavalo amarelo-malhado ter tomado chá de trepadeira e ficado com as folhas entaladas na garganta, transformou -se numa girafa. Quando um camundongo gigante cansou de levar seus filhos a tiracolo e amarrou uma bolsa na barriga, virou um canguru. Já a gelatina, que teve a sorte de ser resgatada do mar Morto por um salva-vidas, ah, virou uma água- viva!

E os reveses nas espécies não param por aí. Tem exemplo de revespécie pra dar e vender. Veja só:

Quem já era devagar quase parando virou preguiça.
Quem tinha samba no pé, uma cuíca.

Virou solitária quem vivia jogada às traças.
Um tremendo furão, quem nunca dava o ar da graça.

Quem era bicho-papão ficou barrigudo.
Quem era cheio de pneuzinhos, borrachudo.

Quem não conseguiu pegar jacaré virou mergulhão.
Quem era nervosinho pacas, um zangão!

Quem gostava de madeira virou bicho-carpinteiro.
Quem dirigia mal pra burro, barbeiro!

Quem não comprava no atacado, virou varejeira.
Quem lavava roupa suja em casa, lavadeira.

Virou quero-quero quem era pidão.
E serelepe, um mexilhão.

Virou maria-fedida quem vivia cheia de craca.
Quem não entrava em barca furada, uma fragata.

O calombo na cachola virou galo.
E quem vivia enrabichado, namorado.

Virou beija-flor quem namorou a rosa no quintal.
Quem pisou na concha acústica, um coral.

Virou truta aquele camarada, grande amigo.
Quem soltava fogo pelas ventas, maçarico.

Virou centopeia o cheio de dedos.
Mas quem vivia pregado continuou percevejo!

Maria Amália Camargo

Aos vinte anos


134136,O (1)

Abri minha janela sobre a chácara. Um bom cheiro de resedás e laranjeiras entrou-me pelo quarto, de camaradagem com o sol, tão confundidos que parecia que era o sol que estava recendendo daquele modo. Vinham ébrios de Abril. Os canteiros riam pela boca vermelha das rosas ; as verduras cantavam, e a república das asas papeava, saltitando, em conflito com a república das folhas. Borboletas doidejavam, como pétalas vivas de flores animadas que se desprendessem da haste.

Tomei a minha xícara de café quente e acendi um cigarro, disposto à leitura dos jornais do dia. Mas, ao levantar os olhos para certo lado da vizinhança, dei com os de alguém que me fitava ; fiz com a cabeça um cumprimento quase involuntário, e fui deste bem pago, porque recebi outro com os juros de um sorriso ; e, ou porque aquele sorriso era fresco e perfumado como a manhã daquele Abril, ou porque aquela manhã era alegre e animadora como o sorriso que desabotoou nos lábios da minha vizinha, o certo foi que neste dia escrevi os meus melhores versos e no seguinte conversei a respeito destes com a pessoa que os inspirou.

Chamava-se Ester, e era bonita. Delgada sem ser magra ; morena, sem ser trigueira ; afável, sem ser vulgar : uns olhos que falavam todos os caprichosos dialetos da ternura ; uma boquinha que era um beijo feito de duas pétalas ; uns dentes melhores que as jóias mais valiosas de Golconda ; cabelos mais lindos do que aqueles com que Eva escondeu o seu primeiro pudor no paraíso.

Fiquei fascinado. Ester enleou-me todo nas teias da sua formosura, penetrando-me até ao fundo da alma com os irresistíveis tentáculos dos seus dezesseis anos. Desde então conversamos todos os dias, de janela contra janela. Disse-me que era solteira, e eu jureu que seríamos um do outro.

Perguntei-lhe uma vez se me amava, e ela, sorrindo, atirou-me com um bogari que nesse momento trazia pendente dos lábios.

Aí ! Sonhei com a minha Ester, bonita e pura, noites e noites seguidas. Idealizei toda uma existência de felicidade ao lado daquela meiga criatura adorável ; até que um dia, já não podendo resistit ao desejo de vê-la mais de perto, aproveitei-me de uma casa à sua contígua, que estava para alugar, e consegui, galgando o muro do terraço, cair-lhe aos pés, humilde e apaixonado.

– Ui ! Que veio o senhor fazer aqui ? perguntou-me trêmula, empalidecendo.

– Dizer-te que te amo loucamente e que não sei continuar a viver sem ti ! suplicar-te que me apresente a que devo pedir a tua mão, e que marques um dia para o casamento, ou então que me emprestes um revólver e me deixes meter aqui mesmo duas balas nos miolos !

Ela, em vez de responder, tratou de tirar-se do meu alcance e fugiu para a porta do terraço.

– Então ?… Nada respondes ?… inquiri no fim de alguns instantes.

– Vá-se embora, criatura !

– Não me amas ?

– Não digo que não ; ao contrário, o senhor é o primeiro rapaz de quem eu gosto, mas vá-se embora, por amor de Deus !

– Quem dispõe de tua mão ?

– Quem dispõe de mim é meu tutor…

– Onde está ele ? Quem é ? Como se chama ?

– Chama-se José Bento Furtado. É capitalista, comendador, e deve estar agora na praça do comércio.

– Preciso falar-lhe.

– Se é para pedir-me em casamento, declaro-lhe que perde o seu tempo.

– Por quê ?

– Meu tutor não quer que eu case antes dos vinte anos e já decidiu com quem há de ser.

– Já ? ! Com quem é ?

– Com ele mesmo.

– Com ele ? Oh ! E que idade tem seu tutor ?

– Cinqüenta anos.

– Jesus ! E a senhora consente ?…

– Que remédio ! Sou órfã, sabe ? De pai e mãe… Teria ficado ao desamparo desde pequenina se não fosse aquele santo homem.

– É seu parente ?

– Não, é meu benfeitor.

– E a senhora ama-o ?…

– Como filha sou louca por ele.

– Mas esse amor, longe de satisfazer a um noivo, é pelo contrário um sério obstáculo para o casamento… A senhora vai fazer a sua desgraça e a do pobre homem !

– Ora ! O outro amor virá depois…

– Duvido !

– Virá à força de dedicação por parte dele e de reconhecimento por minha parte.

– Acho tudo isso imoral e ridículo, permita que lho diga !

– Não estamos de acordo.

– E se eu me entender com ele ? Se lhe pedir que me dê, suplicar, de joelhos, se preciso for ?… Pode ser que o homem, bom, como a senhora diz que é, se compadeça de mim, ou de nós, e…

– É inútil ! Ele só tem uma preocupação na vida : ser meu marido !

– Fujamos então !

– Deus me livre ! Estou certa de que com isso causaria a morte do meu benfeitor !

– Devo, nesse caso, perder todas as esperanças de… ?

– Não ! Deve esperar com paciência. Pode bem ser que ele mude ainda de idéia, ou, quem sabe ? Pode ser que morra antes de realizar o seu projeto…

– E acha a senhora que esperarei, sabe Deus por quanto tempo ! Sem sucumbir à violência da minha paixão ?…

– O verdadeiro amor a tudo resiste, quando mais ao tempo ! Tenha fé e constância é só o que lhe digo. E adeus.

– Pois adeus !

– Não vale zangar-se. Trepe de novo ao muro e retire-se. Vou buscar-lhe uma cadeira.

– Obrigado. Não é preciso. Faço todo o gosto em cair, se me escorregar a mão ! Quem me dera até que morresse da queda, aqui mesmo !

– Deixe-se de tolices ! Vá !

Saí ; saí ridiculamente, trepando-me pelo muro, como um macaco, e levando o desalento no coração. „Ÿ Ah ! maldito tutor dos diabos ! Velho gaiteiro e libertino ! Ignóbil maluco, que acabava de transformar em fel todo o encanto e toda a poesia da minha existência ! „Ÿ A vontade que eu sentia era de matá-lo ; era de vingar-me ferozmente da terrível agonia que aquele monstro me ferrara no coração !

– Mas não as perdes, miserável ! Deixa estar ! Prometia eu com os meus botões.

Não pude comer, nem dormir, durante muitos dias. Entretanto, a minha adorável vizinha falava-me sempre, sorria-me, atirava-me flores, recitava os meus versos e conversava-me sobre o nosso amor. Eu estava cada vez mais apaixonado.

Resolvi destruir o obstáculo da minha felicidade. Resolvi dar cabo do tutor de Ester.

Já o conhecia de vista ; muita vez encontramo-nos à volta do espetáculo, em caminho de casa. Ora a rua em que habitava o miserável era escusa e sombria… Não havia que hesitar : comprei um revólver de seis tiros e as competentes balas.

– E há de ser amanhã mesmo ! jurei comigo.

E deliberei passar o resto desse dia a familiarizar-me com a arma no fundo da chácara ; mas logo às primeiras detonações os vizinhos protestaram ; interveio a polícia, e eu tive de resignar-me a tomar um bode da Tijuca e ir continuar o meu sinistro exercício no hotel Jordão.

Ficou, pois, transferido o terrível desígnio para mais tarde. Eram alguns dias de vida que eu concedia ao desgraçado.

No fim de uma semana estava apto a disparar sem receio de perder a pontaria. Voltei para o meu cômodo de rapaz solteiro ; acendi um charuto ; estirei-me no canapé e dispus-me a esperar pela hora.

– Mas, pensei já à noite, quem sabe se Ester não exagerou a cousa ?… Ela é um pouquinho imaginosa… Pode ser que, se eu falasse ao tutor de certo modo… Hein ? Sim ! É bem possível que o homem se convencesse e… Em todo o caso, que diabo, nada perderia eu em tentar !… Seria até muito digno de minha parte…

– Está dito ! resolvi, enterrando a cabeça entre os travesseiros. Amanhã procuro-o ; faço-lhe o pedido com todas as formalidades ; se o estúpido negar „Ÿ insisto, falo, discuto ; e, se ele, ainda assim, não ceder, então bem „Ÿ Zás ! Morreu ! Acabou-se !

No dia imediato, de casaca e gravata branca, entrava eu na sala de visitas do meu homem.

Era domingo, e apesar de uma hora da tarde, ouvi barulho de louça lá dentro.

Mandei o meu cartão. Meia hora depois apareceu-me o velhote, de rodaque branco, chinelas, sem colete, palitando os dentes.

A gravidade do meu trajo desconcertou-o um tanto. Pediu-me desculpa por me receber tão à frescata, ofereceu-me uma cadeira e perguntou-me ao que devia a honra daquela visita.

Que, lhe parecia, tratava-se de cousa séria…

– Do que há de mais sério, senhor comendador Furtado ! Trata-se da minha felicidade ! Do meu futuro ! Trata-se da minha própria vida !…

– Tenha a bondade de pôr os pontos nos ii…

– Venho pedir-lhe a mão de sua filha…

– Filha ?

– Quer dizer : sua pupila…

– Pupila !…

– Sim, sua adorável pupila, a quem amo, a quem idolatro e por quem sou correspondido com igual ardor ! Se ela não o declarou ainda a V.S.a é porque receia com isso contrariá-lo ; creia, porém, senhor comendador, que…

– Mas, perdão, eu não tenho pupila nenhuma !

– Como ? E D. Ester ?…

– Ester ? !…

– Sim ! A encantadora, a minha divina Ester ! Ah ! Ei-la ! É essa que aí chega ! exclamei, vendo que a minha estremecida vizinha surgiu na saleta contígua.

– Esta ? !… balbuciou o comendador, quando ela entrou na sala, « mas esta é minha mulher !…

– ? !…

Aluísio de Azevedo

Dentro da noite


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– Então causou sensação?

– Tanto mais quanto era inexplicável. Tu amavas a Clotilde, não? Ela, coitadita!, parecia louca por ti, e os pais estavam radiantes de alegria. De repente, súbita transformação. Tu desapareces, a família fecha os salões como se estivesse de luto pesado. Clotilde chora… Evidentemente havia um mistério, uma dessas coisas capazes de fazer os espíritos imaginosos arquitetarem dramas horrendos. Por felicidade, o juízo geral é contra o teu procedimento.

– Contra mim?

– Podia ser contra a pureza de Clotilde. Graças aos deuses, porém, é contra ti. Eu mesmo concordaria com o Prates, que te chama velhaco, se não viesse encontrar o nosso Rodolfo, agora, às onze da noite, por tamanha intempérie metido num trem de subúrbio, com o ar desvairado…

– Eu tenho o ar desvairado?

– Absolutamente desvairado.

– Vê-se?

– É claro. Pobre amigo! Então, sofreste muito? Conta lá. Estás pálido, suando apesar da temperatura fria, e com um olhar tão estranho, tão esquisito. Parece que bebeste e que choraste. Conta lá. Nunca pensei encontrar o Rodolfo Queirós, o mais elegante artista desta terra, num trem de subúrbio, às onze de uma noite de temporal. É curioso. Ocultas os pesares nas matas suburbanas? Estás a fazer passeios de vício perigoso?

O trem rasgava a treva num silvo alanhante, e de novo cavalava sobre os trilhos. Um sino enorme ia com ele badalando, e pelas portinholas do vagão viam-se, a marginar a estrada, as luzes das casas ainda abertas, os silvedos empapados de água e a chuva lastimável a tecer o seu infindável véu de lágrimas. Percebi então que o sujeito gordo da banqueta próxima – o que falava mais – dizia para o outro:

– Mas como tremes, criatura de Deus! Estás doente?

O outro sorriu desanimado.

– Não; estou nervoso, estou com a maldita crise.

E como o gordo esperasse:

– Oh! meu caro, o Prates tem razão! E teve razão a família de Clotilde e tens razão tu, cujo olhar é de assustada piedade. Sou um miserável desvairado, sou um infame desgraçado.

– Mas o que é isto, Rodolfo?

– Que é isto! É o fim, meu bom amigo, é o meu fim. Não há quem não tenha o seu vício, a sua tara, a sua brecha. Eu tenho um vício que é positivamente a loucura. Luto, resisto, grito, debato-me, não quero, não quero, mas o vício vem vindo a rir, toma-me a mão, faz-me inconsciente, apodera-se de mim. Estou com a crise. Lembras-te de Jeanne Dambreuil quando se picava com morfina? Lembras-te de João Guedes quando nos convidava para as fumeries de ópio? Sabiam ambos que acabavam com a vida e não podiam resistir. Eu quero resistir e não posso. Estás a conversar com um homem que se sente doido.

– Tomas morfina, agora? Foi o desgosto, decerto…

O rapaz que tinha o olhar desvairado perscrutou o vagão. Não havia ninguém mais – a não ser eu, e eu dormia profundamente… Ele então aproximou-se do sujeito gordo,
numa ânsia de explicações.

– Foi de repente, Justino. Nunca pensei! Eu era um homem regular, de bons instintos, com uma família honesta. Ia casar com a Clotilde, ser de bondade a quem amava perdidamente. E uma noite estávamos no baile do Praxedes, quando a Clotilde apareceu decotada, com os braços nus. Que braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e comovedora, meio infantil, meio mulher – a beleza dos braços das Oréades pintadas por Botticelli, misto de castidade mística e de alegria pagã. Tive um estremecimento. Ciúmes? Não. Era um estado que nunca se apossara de mim: a vontade de tê-los só para os meus olhos, de beijá-los, de acariciá-los, mas principalmente de fazê-los sofrer. Fui ao encontro da pobre rapariga fazendo um enorme esforço, porque o meu desejo era agarrar-lhe os braços, sacudi-los, apertá-los com toda a força, fazerlhes manchas negras, bem negras, feri-los… Por quê? Não sei, nem eu mesmo sei – uma nevrose! Essa noite passei-a numa agitação incrível. Mas contive-me. Contive-me dias, meses, um longo tempo, com pavor do que poderia acontecer. O desejo, porém, ficou, cresceu, brotou, enraizou-se na minha pobre alma. No primeiro instante, a minha vontade era bater-lhe com pesos, brutalmente. Agora a grande vontade era de espetá-los, de enterrar-lhes longos alfinetes, de cosê-los devagarinho, a picadas. E junto de Clotilde, por mais compridas que trouxesse as mangas, eu via esses braços nus como na primeira noite, via a sua forma grácil e suave, sentia a finura da pele e imaginava o súbito estremeção quando pudesse enfiar o primeiro alfinete, escolhia posições, compunha o prazer diante daquele susto de carne a sentir.

– Que horror!

– Afinal, uma outra vez, encontrei-a na sauterie da viscondessa de Lajes, com um vestido em que as mangas eram de gaze. Os seus braços – oh! que braços, Justino, que
braços! – estavam quase nus. Quando Clotilde erguia-os, parecia uma ninfa que fosse se metamorfoseando em anjo. No canto da varanda, entre as roseiras, ela disse-me:
“Rodolfo, que olhar o seu. Está zangado?” Não foi possível reter o desejo que me punha a tremer, rangendo os dentes. “Oh! não!” fiz, “estou apenas com vontade de espetar este alfinete no seu braço”. Sabes como é pura a Clotilde. A pobrezita olhou-me assustada, pensou, sorriu com tristeza: “Se não quer que eu mostre os braços, por que não me disse, há mais tempo, Rodolfo? Diga, é isso que o faz zangado?” “É, é isso, Clotilde.” E rindo – como esse riso devia parecer idiota! – continuei: “É preciso pagar ao meu ciúme a sua dívida de sangue. Deixe espetar o alfinete.” ” Está louco, Rodolfo?” “Que tem?” “Vai fazer-me doer” “Não dói.” “E o sangue?” “Beberei esta gota de sangue como a ambrosia do esquecimento.” E dei por mim, quase de joelhos, implorando, suplicando, inventando frases, com um gosto de sangue na boca e as frontes a bater, a bater… Clotilde por fim estava atordoada, vencida, não compreendendo bem se devia ou não resistir. Ah! meu caro, as mulheres! Que estranho fundo de bondade, de submissão, de desejo, de dedicação inconsciente tem uma pobre menina! Ao cabo de um certo tempo, ela curvou a cabeça, murmurou num suspiro: “Bem, Rodolfo, faça… mas devagar, Rodolfo! Há de doer tanto!” E os seus dois braços tremiam.

Tirei da botoeira da casaca um alfinete, e nervoso, nervoso como se fosse amar pela primeira vez, escolhi o lugar, passei a mão, senti a pele macia e enterrei-o. Foi
como se fisgasse uma pétala de camélia, mas deu-me um gozo complexo de que participavam todos os meus sentidos. Ela teve um ah! de dor, levou o lenço ao sítio picado, e disse, magoadamente: “Mau!”

Ah! Justino, não dormi. Deitado, a delícia daquela carne que sofrera por meu desejo, a sensação do aço afundando devagar no braço da minha noiva, dava-me espasmos de horror! Que prazer tremendo! E apertando os varões da cama, mordendo o travesseiro, eu tinha a certeza de que dentro de mim rebentara a moléstia incurável. Ao mesmo
tempo em que forçava o pensamento a dizer: “Nunca mais farei essa infâmia!”, todos os meus nervos latejavam: “Voltas amanhã; tens que gozar de novo o supremo prazer!” Era o delírio, era a moléstia, era o meu horror…

Houve um silêncio. O trem corria em plena treva, acordando os campos com o desesperado badalar da máquina. O sujeito gordo tirou a carteira e acendeu uma cigarreta.

– Caso muito interessante, Rodolfo. Não há dúvida de que é uma degeneração sexual, mas o altruísmo de São Francisco de Assis também é degeneração e o amor de Santa Teresa não foi outra coisa. Sabes que Rousseau tinha pouco mais ou menos esse mal? És mais um tipo a enriquecer a série enorme dos discípulos do marquês de Sade. Um homem de espírito já definiu o sadismo: a depravação intelectual do assassinato. És um Jack-the-ripper civilizado, contentas-te com enterrar alfinetes nos braços. Não te assustes.

O outro resfolegava, com a cabeça entre as mãos.

– Não rias, Justino. Estás a tecer paradoxos diante de uma criatura do outro lado da vida normal. É lúgubre.

– Então continuaste?

– Sim, continuei, voltei, imediatamente. No dia seguinte, à noitinha, estava em casa de Clotilde, e com um desejo louco, desvairado. Nós conversávamos na sala de visitas. Os velhos ficavam por ali a montar guarda. Eu e a Clotilde íamos para o fundo, para o sofá. Logo ao entrar tive o instinto de que podia praticar a minha infâmia na penumbra da sala, enquanto o pai conversasse. Estava tão agitado que o velho exclamou: “Parece, Rodolfo, que vieste a correr para não perder a festa”.

Eu estava louco, apenas. Não poderás nunca imaginar o caos da minha alma naqueles momentos em que estive a seu lado no sofá, o maelstrom de angústias, de esforços, de desejos, a luta da razão e do mal, o mal que eu senti saltar-me à garganta, tomar-me a mão, ir agir, ir agir… Quando ao cabo de alguns minutos acariciei-lhe na sombra o braço, por cima da manga, numa carícia lenta que subia das mãos para os ombros, entre os dedos senti que já tinha o alfinete, o alfinete pavoroso. Então fechei os olhos, encolhi-me, encolhi-me, e finquei.

Ela estremeceu, suspirou. Eu tive logo um relaxamento de nervos, uma doce acalmia. Passara a crise com a satisfação, mas sobre os meus olhos os olhos de Clotilde se
fixavam enormes e eu vi que ela compreendia vagamente tudo, que ela descobria o seu infortúnio e a minha infâmia. Como era nobre, porém! Não disse uma palavra. Era a desgraça. Que havia de fazer?… Então depois, Justino, sabes?, foi todo dia. Não lhe via a carne, mas sentia-a marcada, ferida. Cosi-lhe os braços! Por último perguntava: “Fez sangue, ontem?” E ela pálida e triste, num suspiro de rola: “Fez”… Pobre Clotilde! A que ponto eu chegara, na necessidade de saber se doera bem, se ferira bem, se estragara bem! E no quarto, à noite, vinham-me grandes pavores súbitos ao pensar no casamento porque sabia que se a tivesse toda havia de picar-lhe a carne virginal nos braços, no dorso, nos seios… Justino, que tristeza!

De novo a voz calou-se. O trem continuava aos solavancos na tempestade, e pareceu-me ouvir o rapaz soluçar. O outro porém estava interessado e indagou:

– Mas então como te saíste?

– Em um mês ela emagreceu, perdeu as cores. Os seus dois olhos negros ardiam aumentados pelas olheiras roxas. Já não tinha risos. Quando eu chegava, fechava-se no quarto, no desejo de espaçar a hora do tormento. Era a mãe que a ia buscar. “Minha filha, o Rodolfo chegou. Avia-te.” E ela de dentro: “Já vou, mãe”. Que dor eu tinha quando a via aparecer sem uma palavra! Sentava-se à janela, consertava as flores da jarra, hesitava, até que sem forças vinha tombar a meu lado, no sofá, como esses pobres pássaros que as serpentes fascinam. Afinal, há dois meses, uma criada viu-lhe os braços, deu o alarme. Clotilde foi interrogada, confessou tudo numa onda de soluços. Nessa mesma tarde recebi uma carta seca do velho pai desfazendo o compromisso e falando em crimes que estão com penas no código.

– E fugiste?

– Não fugi; rolei, perdi-me. Nada mais resta do antigo Rodolfo. Sou outro homem, tenho outra alma, outra voz, outras idéias. Assisto-me endoidecer. Perder a Clotilde foi para mim o soçobramento total. Para esquecê-la percorri os lugares de má fama, aluguei por muito dinheiro a dor das mulheres infames, freqüentei alcouces. Até aí o meu perfil foi dentro em pouco o terror. As mulheres apontavam-me a sorrir, mas um sorriso de medo, de horror.

A pedir, a rogar um instante de calma eu corria às vezes ruas inteiras da Suburra, numa enxurrada de apodos. Esses entes querem apanhar do amante, sofrem lanhos na fúria do amor, mas tremem de nojo assustado diante do ser que pausadamente e sem cólera lhes enterra alfinetes. Eu era ridículo e pavoroso. Dei então para agir livremente, ao acaso, sem dar satisfações, nas desconhecidas. Gozo agora nos tramways, nos music-halls, nos comboios dos caminhos de ferro, nas ruas. E muito mais simples. Aproximo-me, tomo posição, enterro sem dó o alfinete. Elas gritam, às vezes. Eu peço desculpa. Uma já me esbofeteou. Mas ninguém descobre se foi proposital. Gosto mais das magras, as que parecem doentes.

A voz do desvairado tornara-se metálica, outra. De novo porém a envolveu um tremor assustado.

– Quando te encontrei, Justino, vinha a acompanhar uma rapariga magrinha. Estou com a crise, estou… O teu pobre amigo está perdido, o teu pobre amigo vai ficar louco…

De repente, num entrechocar de todos os vagões o comboio parou. Estávamos numa estação suja, iluminada vagamente. Dois ou três empregados apareceram com lanternas rubras e verdes. Apitos trilaram. Nesse momento, uma menina loira com um guarda-chuva a pingar, apareceu, espiou o vagão, caminhou para outro, entrou. O rapaz pôs-se de pé logo.

– Adeus.

– Saltas aqui?

– Salto.

– Mas que vais fazer?

– Não posso, deixa-me! Adeus!

Saiu, hesitou um instante. De novo os apitos trilaram. O trem teve um arranco. O rapaz apertou a cabeça com as duas mãos como se quisesse reter um irresistível impulso. Houve um silvo. A enorme massa resfolegando rangeu sobre os trilhos. O rapaz olhou para os lados, consultou a botoeira, correu para o vagão onde desaparecera a menina loira. Logo o comboio partiu. O homem gordo recolheu a sua curiosidade, mais pálido, fazendo subir a vidraça da janela. Depois estendeu-se na banqueta. Eu estava incapaz de erguer-me, imaginando ouvir a cada instante um grito doloroso no outro vagão, no que estava a menina loira. Mas o comboio rasgara a treva com o outro silvo, cavalgando os trilhos vertiginosamente. Através das vidraças molhadas viam-se numa correria fantástica as luzes das casas ainda abertas, as sebes empapadas d’água sob a chuva torrencial. E à frente, no alto da locomotiva, como o rebate do desespero, o enorme sino reboava, acordando a noite, enchendo a treva de um clamor de desgraça e de delírio.

João do Rio

Cartão postal


postcard (1)

Domingo no jardim público pensativo.
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.

O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota Pereira.

 
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

Quando eu morrer quero ficar


mario-de-andrade

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

 

Mário de Andrade

Uma aposta


namoro antigo

Se o Simplício Gomes não fosse um rapaz do nosso tempo, se não usasse calças brancas, paletó de alpaca, chapéu de palha e guarda-chuva, daria ideia de um desses quebra-lanças que só se encontram nos romances de cavalaria. De outro qualquer diríamos: “Ele gostava da Dudu”; tratando-se, porém, do Simplício Gomes, empregaremos esta expressão menos familiar: “Ele amava Edviges.”

O seu amor tinha, realmente, alguma coisa de puro e de ideal, que não se compadecia com os costumes de hoje.

Começava por ser discreto; Dudu adivinhou, ou antes, percebeu que era amada, mas ele nunca lho disse, nunca se atreveu a dizer-lhe, não por timidez ou respeito, mas simplesmente porque não tinha confiança no seu merecimento.

Estava bem empregado, poderia casar-se e viver modestamente em família, mas era tão feio, tão pequenino, tão insignificante e ela tão linda e tão esbelta, que o casamento lhe parecia desproporcionado.

Ele não se sentia digno dela, não acreditava que a pudesse fazer feliz, e isso o desgostava profundamente. Ela, por seu lado, não concorria para que a situação se modificasse: fingia ignorar que ele a amava, e atribuía toda aquela solicitude a um afeto desinteressado.

Dudu vivia com a mãe, uma pobre viúva sem outro recurso que não fosse o do meio soldo e montepio deixados pelo marido, brioso oficial do Exército que viveu sempre desprotegido, porque não sabia lisonjear nem pedir; mas o Simplício Gomes, sem fumaças de protetor, e dando a esmola com ares de quem a recebia, achava meios e modos de fazer com que naquela casa faltasse apenas o supérfluo.

Como era parente, embora afastado, das duas senhoras, estas consideravam os seus favores simples atenções de família.

O caso é que o Simplício Gomes parecia adivinhar os menores desejos de Dudu e nessas ocasiões recorria ao ardil de uma aposta:

– Aposto que hoje chove!

– Que ideia! o dia está bonito!

– Pois sim, mas o calor é excessivo: temos água com toda certeza!

– Não temos!

– Façamos uma aposta!

– Valeu! se chover eu perco uma caixa de charutos.

– E eu aquela blusa que você viu na vitrina da Notre Dame e cobiçou tanto.

– Quem lhe disse que cobicei?

– Ora, esses olhos não me enganam…

No dia seguinte Dudu recebia a blusa.

A velha costumava dizer com muita ingenuidade:

– Você faz mal em apostar, Simplício! E muito caipora, perde sempre, e então, em se tratando de mudança de tempo, é uma lástima!

Conquanto não se atrevesse a falar em casamento, o pobre rapaz sofria, oprimido pela idéia de que quando menos se pensasse, Dudu teria um namorado… um noivo… um marido e efetivamente, não se passou muito tempo que os seus receios não se realizassem.

Dudu impressionou-se por um cavalheiro muito bem trajado, que começou a rondar-lhe a porta quase todos os dias, cumprimentando-a, depois sorrindo-lhe, e finalmente escrevendo-lhe graças à cumplicidade de um molecote da casa.

Depois de receber três cartas, Dudu contestou, convenceu-se de que as intenções do namorado eram as melhores e mostrou a correspondência à mãe, que imediatamente consultou o Simplício Gomes sem saber o desgosto que lhe causava. Este, que já havia notado as idas e vindas do transeunte suspeito, disfarçou o mais que pôde, os seus sentimentos, limitando-se a dizer que Dudu não deveria casar-se com aquele homem sem ter primeiramente certeza de que ele a amava deveras.

A velha, com toda a sua simplicidade, pediu-lhe que se informasse da idoneidade do pretendente, e o mísero logo se transformou de quebra-lanças em quebra-esquinas.

Foram desanimadoras (para ele) as informações que obteve: o rival chamava-se Bandeira, era de boa família, de bons costumes, funcionário público de certa categoria, estimado, e tinha alguma coisa. O seu único defeito era ser um pouco genioso.

O Simplício, que não tinha o altruísmo heroico de Cirano de Bergerac, não avolumou as qualidades do outro, mas foi leal: não as diminuiu. Em suma: o Bandeira pediu a mão de Dudu; e começou a frequentar a casa.

O coitado não articulou uma queixa, mas começou desde logo a emagrecer a olhos vistos; perdeu o apetite, ficou macambúzio, fúnebre… Dudu, que tudo compreendeu, teve muita pena, teve quase remorsos; mas a velha nem mesmo assim desconfiou que a filha fosse adorada pelo infeliz parente.

Entretanto, o Simplício Gomes começou a ser assíduo em casa de Dudu; o seu desejo oculto era não deixá-la sozinha com o tal Bandeira enquanto não se casassem.

O noivo tinha, efetivamente, boas qualidades, mas era não só genioso, mas de uma arrogância, de uma empáfia, de um autoritarismo que começaram a inquietar Dudu.

Uma bela tarde em que se achavam ambos sentados no canapé, e o Simplício Gomes, afastado, num canto da sala, folheava um álbum de retratos, o Bandeira levantou-se dizendo:

– Vou-me embora; tenho ainda que dar umas voltas antes da noite.

– Ora, ainda é cedo; fique mais um instantinho, replicou Dudu, sem se levantar do canapé.

– Já lhe disse que tenho que fazer! Peço-lhe que vá desde já se habituando a não contrariar as minhas vontades! Olhe que depois de casado, hei de sair quantas vezes quiser sem dar satisfações a ninguém!

– Bom; não precisa zangar-se…

– Não me zango, mas contrario-me! Não me escravizei; quero casar-me com a senhora, mas não perder a liberdade!

– Faz bem. Adeus. Até quando?

– Até amanhã ou depois.

O Bandeira apertou a mão de Dudu, despediu-se com um gesto do Simplício Gomes, e saiu batendo passos enérgicos, de dono de casa.

Dudu ficou sentada no canapé, olhando para o chão.

O Simplício Gomes aproximou-se de mansinho, e sentou-se ao seu lado.

Ficaram dez minutos sem dizer nada um ao outro.

Afinal Dudu rompeu o silêncio. Olhou para o céu iluminado por um crepúsculo esplêndido, e murmurou:

– Vamos ter chuva.

– Não diga isso, Dudu: o tempo está seguro!

– Apostemos!

– Pois apostemos! Eu perco uma coisa bonita para o seu enxoval de noiva. E você?

– Eu… perco-me a mim mesma, porque quero ser tua mulher!

E Dudu caiu, chorando, nos braços de Simplício Gomes.

Artur Azevedo

(O Século, 9 de julho de 1907. In Histórias brejeiras, 1962.)